O recrutador quis saber qual era o meu hobbie preferido

As minhas esperanças da tão sonhada vaga já estavam chegando ao fim. Havia perdido as contas do número de entrevistas que eu tinha enfrentado naquela semana. A única coisa que realmente me recordo eram das minhas sapatilhas de plástico amarelas. Sim, era o único sapato que ainda sobrara com uma aparência apresentável. Recordo da caminhada longa para chegar ao  local da entrevista e de sentir o sol das 12hs na sola de meus pés. Sapatilhas de plástico decididamente não foram feitas para andar no asfalto. Mas, lá estava eu com o brilho mais extremo nos olhos pela grande oportunidade de emprego.

Tudo parece muito bem. Eu havia feito o curso universitário na Universidade que pertencia a companhia que eu tentava entrar. Isso era um ponto positivo para mim, pois eu tinha um bom conceito na graduação, tinha prêmios, havia feito muitas atividades práticas durante o curso. Tudo ia muito bem na minha tão esperada entrevista até o recrutador fazer àquela pergunta que me fez calar “Qual é o seu hobbie preferido? O que você faz nas suas horas de lazer?” Horas de lazer… nos últimos meses a única coisa que eu fazia era usar a internet para buscar vagas e vagas e ir na igreja rezer e pedir para ir bem nos processos seletivos.

Sim, eu me calei a única coisa que consegui falar para ele que eu gostava de ler. O que era uma grande verdade, porém, há tempos não conseguia me concentrar em leituras tamanha a urgência daquela oportunidade.

Eu passei na entrevista, fui contratada. Mas, o meu desejo por empreendedorismo não me fez permanecer na companhia. Ansiava por uma chance, mas não era dentro de uma grande organização, decididamente.

Ao longo dos anos passei a atuar com empreendedorismo, não somente o meu, mas incentivando outras pessoas a abrirem suas empresas e terem seus clientes. Mas, aquela pergunta tão comum nos processos seletivos permaneceu na minha cabeça. Hoje eu percebo que na maioria das vezes por paixão ao nosso trabalho ou excesso dele mesmo, nós, muitas vezes acabamos de esquecer dos nossos hobbies. Não estou falando dos nossos passeios comuns com a família, nosso lazer de final de semana. Estou falando das nossas verdadeiras paixões que vão sendo esquecidas com o tempo e que tanto falam de nós. Que na hora de uma seleção na verdade é bem aquilo que o recrutador esta querendo saber de nós, de nossa essência e do que faz nossos olhos brilharem. A paixão por literatura, a paixão por esportes, por praticar esportes, aquela velha paixão pela dançar, aquela paixão por gastronomia, aquela paixão por cantar para os amigos. Nossos hobbies, nossos sonhos que nos fazem pessoas maiores e melhores.

Hoje ao começar a assessorar algum profissional para incentiva-lo ao empreendorismo, antes de qualquer coisa eu o provoco a me contar de seus sonhos, dos mais impossíveis. Faço isso com meus alunos dos cursos profissionalizantes que leciono, faço com os palestrantes que assessoro. E diante de suas respostas eu realmente passo a conhecê-los mais profundamente. Percebo também que assim como eu naquele momento, também muitos tem dificuldades para lembrar de seus verdadeiros hobbies. E você? Quais são os seus?

Eli Antonelli, jornalista e headhunter

Deixe sua opinião